Futebol - ópio ou ódio do povo? Obs 3
Bastante difundida, a máxima de Nélson Rodrigues (ou uma entra tantas suas), de que o futebol é o ópio do povo, ganha mais e mais volume e representação atualmente. E para a pior, infelizmente. O ópio começa a alimentar o ódio. E a nele se transfigurar. O que era para continuar a ser apenas a torcida por um time e, de resto, encarar a vitória ou derrota, bem como as brincadeiras dos vencedores, como coisa normal, virou questão de honra, algo que define ou definha a masculinidade e hombridade dos envolvidos na questão. Ok, isso não acontece há pouco tempo. Mas ganhou proporções nunca antes vista. E se times e governos não tomarem alguma providência, algo de bem pior poderá acontecer de uma hora para outra. Ainda que já anunciado diariamente.
Os distúrbios entre torcidas já são sabidos e mais que vistos pela televisão. Mas devemos observar como algumas atitudes diárias contribuem para manchar o que deveria ser uma atividade de natureza lúdica, brincalhona, mesmo, que é o ato de torcer por um time. Provocações e brincadeiras há muito já ultrapassaram os limites do aceitável. Alguns pensam que sua vida vai depender da vitória de seu time e derrota humilhante do time alheio.
Um exemplo aconteceu na decisão do Campeonato Carioca de 2009. Era domingo e eu estava em uma lan-house. Não acompanhando a decisão, pois o meu Vasco já estava fora do páreo. Mas o interessante foi ver que, após o goleiro rubro-negro Bruno defender um pênalti cobrado pelo atacante botafoguense Valdir Simões, um garoto que não devia ter mais do que 13 anos virou-se para quem quisesse e não quisesse ouvir dentro do recinto e bradou: "Aê! Eu torço pro (sic) Flamengo, rapá... não torço pra esse Botafogo, time de otário, não!"
De cara me veio uma vopntade de repreendê-lo. Mas não o fiz. Primeiro, porque não sou botafoguense. Segundo, porque não o conhecia. Terceiro, não cri que fosse adiantar alguma coisa. A falta de consciência - individual ou coletiva - não é reversível em poucas frases. Ao contrário, pode gerar mais e mais atitudes negativas. E como se diz a um rapaz nessa idade que ele está cometendo algo sociologicamente errôneo, pra dizer o mínimo?
E ninguém reagiu. Ainda bem. Como seria a melhor reação possível a uma sandice que é chamar de otário a qualquer botafoguense que estivesse na lan? E se implicasse no envolvimento de outras pessoas? E se houvesse violência? Não... o garoto certamente não pensou nisso. A intenção de deixar seu brado no ar veio em uma fração de segundos, numa explosão apaixonada por seu time, e no mesmo tempo viagou pelo ar. Em menos de um segundo ele poderia ter causado uma confusão daquelas dentro do estabelecimento. Mas ele nem sequer imaginou tal possibilidade. Como milhões de outros iguais a ele também não o fazem.
E tudo por que razão? Por torcer por um time cujos integrantes (iguais aos de tantos outros times) ganham salários altos e injustos para nem sempre honrar o esporte que praticam, muito menos a equipe que defendem. Certa feita, perguntei a um amigo meu - que já jogou futebol profissional - por que é que nós, peladeiros, sem salários ou garantias, médicos à disposição, seguros e afins, chutaríamos nossa própria mãe se ela estivesse dividindo uma bola na pelada, enquanto que, quem ganha 40, 50, cem mil reais não chega nem perto disso em termos de atitude. A resposta dele foi seca e sincera: "Exatamente por isso. Porque peladeiro não ganha cem mil reais."
Aquele garoto também não. Mas queria que ele soubesse disso.
Os distúrbios entre torcidas já são sabidos e mais que vistos pela televisão. Mas devemos observar como algumas atitudes diárias contribuem para manchar o que deveria ser uma atividade de natureza lúdica, brincalhona, mesmo, que é o ato de torcer por um time. Provocações e brincadeiras há muito já ultrapassaram os limites do aceitável. Alguns pensam que sua vida vai depender da vitória de seu time e derrota humilhante do time alheio.
Um exemplo aconteceu na decisão do Campeonato Carioca de 2009. Era domingo e eu estava em uma lan-house. Não acompanhando a decisão, pois o meu Vasco já estava fora do páreo. Mas o interessante foi ver que, após o goleiro rubro-negro Bruno defender um pênalti cobrado pelo atacante botafoguense Valdir Simões, um garoto que não devia ter mais do que 13 anos virou-se para quem quisesse e não quisesse ouvir dentro do recinto e bradou: "Aê! Eu torço pro (sic) Flamengo, rapá... não torço pra esse Botafogo, time de otário, não!"
De cara me veio uma vopntade de repreendê-lo. Mas não o fiz. Primeiro, porque não sou botafoguense. Segundo, porque não o conhecia. Terceiro, não cri que fosse adiantar alguma coisa. A falta de consciência - individual ou coletiva - não é reversível em poucas frases. Ao contrário, pode gerar mais e mais atitudes negativas. E como se diz a um rapaz nessa idade que ele está cometendo algo sociologicamente errôneo, pra dizer o mínimo?
E ninguém reagiu. Ainda bem. Como seria a melhor reação possível a uma sandice que é chamar de otário a qualquer botafoguense que estivesse na lan? E se implicasse no envolvimento de outras pessoas? E se houvesse violência? Não... o garoto certamente não pensou nisso. A intenção de deixar seu brado no ar veio em uma fração de segundos, numa explosão apaixonada por seu time, e no mesmo tempo viagou pelo ar. Em menos de um segundo ele poderia ter causado uma confusão daquelas dentro do estabelecimento. Mas ele nem sequer imaginou tal possibilidade. Como milhões de outros iguais a ele também não o fazem.
E tudo por que razão? Por torcer por um time cujos integrantes (iguais aos de tantos outros times) ganham salários altos e injustos para nem sempre honrar o esporte que praticam, muito menos a equipe que defendem. Certa feita, perguntei a um amigo meu - que já jogou futebol profissional - por que é que nós, peladeiros, sem salários ou garantias, médicos à disposição, seguros e afins, chutaríamos nossa própria mãe se ela estivesse dividindo uma bola na pelada, enquanto que, quem ganha 40, 50, cem mil reais não chega nem perto disso em termos de atitude. A resposta dele foi seca e sincera: "Exatamente por isso. Porque peladeiro não ganha cem mil reais."
Aquele garoto também não. Mas queria que ele soubesse disso.

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